ICH Q10 NA PRÁTICA Usando risco como ferramenta de priorização gerencial

ICH Q10 NA PRÁTICA Usando risco como ferramenta de priorização gerencial

Na gestão farmacêutica, ICH Q10 não deve ser encarado apenas como um “manual de qualidade”; é um modelo de gestão. E o jeito mais maduro de aplicar esse modelo hoje é simples de explicar, e difícil de executar: usar risco como ferramenta de priorização gerencial, do portfólio ao chão de fábrica.

 

O ICH Q10 descreve um Sistema de Qualidade Farmacêutica orientado ao ciclo de vida, integrando desempenho de processo, qualidade do produto, CAPA, gestão de mudanças e revisão pela direção. O ponto central é manter estado de controle e acelerar melhoria contínua. 

 

O que mudou no “mundo real” desde que muita gente estudou Q10 pela primeira vez? A indústria ficou mais digital, mais auditada por dados, mais pressionada por eficiência, e as boas práticas incorporaram ainda mais o pensamento baseado em risco. No Brasil, a RDC nº 658/2022 adota diretrizes gerais de BPF alinhadas ao PIC/S, reforçando a lógica de sistema e de tomada de decisão robusta. 

 

Além disso, atualizações regulatórias recentes reforçam explicitamente o raciocínio: a RDC nº 972/2025 alterou a RDC 658/2022 para permitir, em condições específicas, a dispensa do controle on-line na embalagem, desde que haja justificativa técnica e estratégias alternativas baseadas no gerenciamento de risco da qualidade. Isso é Q10 em ação, risco definindo onde o controle precisa ser “mais forte” e onde ele pode ser “diferente”, sem fragilizar o sistema. 

 

Como transformar isso em priorização gerencial, na prática?

 

  1. Comece pela pergunta que direciona investimento: onde o risco afeta paciente, registro, fornecimento e reputação ao mesmo tempo? Liste poucos “riscos-mãe”, os que puxam cadeia de desvios, OOS, reclamações e retrabalho.

 

  1. Conecte risco aos quatro motores do Q10:
    Monitoramento de desempenho e qualidade do produto, CAPA, gestão de mudanças, e revisão gerencial. O que não entra nesses fluxos vira “documento bonito” e pouco útil. 

 

  1. Faça a priorização virar agenda de direção:
    Exemplo prático, se tendência de variação em dissolução aparece, isso não é só tema de laboratório. Vira pauta executiva: capacidade do processo, controle de matéria-prima, estratégia analítica, e impacto em supply. A decisão não é “abrir desvio”, é decidir entre reforçar controle, mudar fornecedor, ajustar parâmetros, ou redesenhar estratégia de controle.

 

  1. Use risco para escolher o nível certo de esforço:
    Nem toda melhoria precisa de mega projeto. Com risco bem aplicado, você separa o que precisa de validação robusta, do que pode ser resolvido com ajuste controlado e monitoramento reforçado.

 

Esse é o ganho real do ICH Q10 também em 2026: tirar a qualidade do modo reativo, e colocar a organização em modo de gestão previsível, com foco, prioridade e retorno.

 

Se você lidera Qualidade, Produção, Validação, P&D ou Assuntos Regulatórios, reflita: hoje, a sua empresa prioriza iniciativas por risco de verdade, ou ainda por urgência do dia?

Autor: Carlos Eduardo Rodrigues Costa

 

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