NITROSAMINAS ALÉM DO API, O NOVO FOCO ESTÁ NOS EXCIPIENTES
Durante muito tempo, a discussão sobre nitrosaminas ficou concentrada no princípio ativo (IFA). Era ali que o risco parecia mais evidente, ali que os métodos evoluíram mais rápido, ali que as exigências regulatórias ganharam forma. Só que esse recorte começa a mostrar limitações claras. Hoje, ignorar o papel dos excipientes já não é uma opção técnica aceitável.
O ponto de virada veio com estudos mais estruturados, especialmente aqueles conduzidos em diferentes laboratórios. Eles mostram algo que muitos já suspeitavam na prática, mas ainda não tinham dados consistentes para sustentar. Excipientes comuns, de fornecedores distintos, apresentam níveis de nitrito bastante diferentes. Em alguns casos, a variação entre lotes do mesmo fornecedor também chama atenção. Isso muda o jogo porque o nitrito atua como precursor direto na formação de nitrosaminas.
Na rotina, isso se traduz em situações concretas. Um produto com método validado, dentro de especificação, começa a apresentar traços inesperados de nitrosamina após alteração de fornecedor de excipiente. O problema não está no IFA, nem no processo, mas em um insumo que tradicionalmente recebia menos atenção analítica. Esse tipo de situação tem se tornado mais frequente.
Analiticamente falando, surge um desafio diferente. Não basta mais focar a impureza final. É preciso entender o caminho que leva até ela. Métodos por LC-MS seguem fundamentais para detecção em níveis traço, mas não resolvem tudo quando o objetivo é antecipar risco. A análise de precursores exige outra abordagem. A derivatização de nitrito, seguida de cromnatografia (HPLC/UHPLC), tem mostrado resultados consistentes, com boa sensibilidade e seletividade, principalmente em matrizes mais complexas.
O desenvolvimento de métodos precisa incorporar essa lógica desde o início. Não faz sentido tratar excipiente apenas como componente inerte. A qualificação de fornecedores também ganha outra dimensão. Avaliar documentação não basta, é necessário gerar dado analítico próprio, com frequência e critério.
Isso amplia o escopo do controle de qualidade. Especificações precisam evoluir, principalmente para excipientes críticos. A gestão de risco passa a exigir acompanhamento contínuo. O laboratório assume um papel mais ativo, menos reativo, mais conectado com o processo como um todo.
Autor: Carlos Eduardo Rodrigues Costa