SPIKES NO CROMATOGRAMA: QUANDO O PROBLEMA NÃO É DA AMOSTRA

SPIKES NO CROMATOGRAMA: QUANDO O PROBLEMA NÃO É DA AMOSTRA

Quem nunca se deparou com um cromatograma aparentemente normal… até que, do nada, surge um pico estreito, agudo, solitário e sem explicação?


Esses eventos repentinos, conhecidos como spikes, são um dos artefatos mais intrigantes, e também mais perigosos, em HPLC.

 

Perigosos por quê?


Porque podem ser confundidos com picos reais, sugerindo a presença de impurezas inexistentes ou gerando dúvidas na análise de pureza e potência. Em ambientes de controle de qualidade, isso pode significar desde retrabalho desnecessário até questionamentos técnicos sérios.

 

O detalhe é que, na maioria dos casos, o problema não está na amostra. Está no sistema.

 

  • Bolhas de ar no detector: Seja por falha de desgaseificação ou entrada acidental de ar, pequenas bolhas alteram a resposta ótica, gerando “picos fantasmas”.
  • Microcontaminações em capilares ou válvulas: Partículas presas em superfícies podem se soltar intermitentemente, criando falsos sinais.
  • Problemas de conexão: Tubos mal rosqueados, vedações desgastadas ou capilares com diâmetro inadequado podem introduzir instabilidade elétrica ou de fluxo.
  • Interferências eletrônicas: Oscilações no detector, picos de energia ou ruído eletrônico também podem aparecer como spikes súbitos.

O desafio é que o spike não segue um padrão lógico. Ele pode aparecer em qualquer ponto do cromatograma e, se o analista não for criterioso, pode ser interpretado como uma impureza.

 

E como diagnosticar? A resposta está no processo de exclusão metódica:

 

  1. Confirme a reprodutibilidade. Se o spike ocorre sempre no mesmo ponto, pode ser real. Se aparece aleatoriamente, o problema é sistêmico.
  2. Teste o detector. Substitua por um “dummy cell” ou outro detector temporário. Se o spike desaparecer, a origem era elétrica/ótica.
  3. Reforce a desgaseificação. Aplique ultrassom, vácuo ou utilize fases móveis com desgaseificação online. Muitas vezes, a solução está na remoção de bolhas.
  4. Revise capilares e conexões. Trocar tubulações antigas, ajustar roscas e checar vedações pode eliminar a fonte do problema.
  5. Monitore solventes. Solventes de menor qualidade ou mal armazenados podem introduzir microcontaminantes que geram artefatos.

 

Imagine o impacto em uma análise de liberação de lote: um spike mal interpretado como impureza acima do limite de especificação poderia levar à reprovação injusta de um medicamento. Por outro lado, ignorar um spike verdadeiro poderia mascarar a presença de um contaminante real.

 

Em termos técnicos, spikes não devem ser tratados como um ruído inevitável, mas como indicadores de instabilidade do sistema. A ocorrência de picos súbitos geralmente aponta para falhas em desgaseificação, integridade de conexões, qualidade de solventes ou até mesmo interferência elétrica no detector.

 

Uma boa prática é incorporar a verificação de spikes aos procedimentos de manutenção preventiva e ao monitoramento de rotina, estabelecendo critérios claros para distinguir defeitos de sinais analíticos reais.

Autor: Carlos Eduardo Rodrigues Costa

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